Do Baú:
Dias de trovoada no verão
em que tudo se torna mais vivo
e, no entanto, mais irreal
A humidade quente
o cheiro da terra molhada
a tonalidade cinzenta de sonho
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Do Baú:
A rugosidade das pedras
das folhas, dos troncos, da terra
sinto-a ainda nas minhas mãos
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Do Baú:
Digo amor
digo uma paisagem
digo infinito
digo branco, azul
Amo uma paisagem
infinita, branca e azul
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Do Baú:
Amor antigo
agora quase irreal
Apenas de vez em quando
uma paisagem
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Do Baú:
Lembro-me das palavras ditas
e do mar manso e prateado
As palavras ligam-se às coisas
e ficam a marcar sonhos
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Do Baú:
Deserto poeira sol
Calor a escorrer das paredes brancas
e da poeira
o sol sempre presente
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...
Da energia original
brutal e indiferente
do unicelular ao policelular
de um meio aquático
para um meio pantanoso
e depois para um meio arbóreo
habitado de forma diversa
surgiu, talvez por acaso
talvez de um som
ou de uma perda
ou de uma claridade
a consciência.
Será que é essa consciência
aquela a que chamamos Deus?
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Do Baú:
Volto a casa
no silêncio de fim de tarde
silêncio absoluto
perfil de montanhas
Sou da mesma matéria dessas montanhas
desse silêncio absoluto desse fim de tarde
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Do Baú:
Saboreio de novo o verde o azul
o cintilar do sol nas árvores e no chão
os cheiros a preguiça os risos
a água tépida no rosto nas mãos nos braços
e os sons (os sons que lembram tanta coisa)
os sons da noite
acabada de anoitecer
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...
No fundo, guardamos em nós
essa capacidade de repetição de cenas
que já representámos de uma outra forma
num outro cenário
Mesmo que nos dêem instruções
para alterar isto ou aquilo
acabamos sempre por cair na nossa peça inicial
É como se fôssemos concebidos
de uma determinada matéria
que não aceita alterações exteriores
porque tem em si um papel para representar
Acredito profundamente nisso
As teorias da supremacia do meio
na construção de uma pessoa
nunca me impressionaram
Mesmo que mudem os cenários
a criatura já sabe o seu papel
Não se pode ver livre da sua própria composição
já está tudo definido
